quinta-feira, agosto 19, 2004

PLANÍCIE


Planície

2004
16 x 27 cms
Acrílico sobre tela
ISABEL MAGALHÃES

Col. Particular

quarta-feira, agosto 18, 2004

Fernando Pessoa

XI

Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela

E oculta mão colora alguém em mim.

Pus a alma no nexo de perdê-la

E o meu princípio floresceu em Fim.

Que importa o tédio que dentro em mim gela,

E o leve Outono, e as galas, e o marfim,

E a congruência da alma que se vela

Com os sonhados pálios de cetim?

Disperso... E a hora como um leque fecha-se...

Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...

O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...

E, abrindo as asas sobre Renovar,

A erma sombra do voo começado

Pestaneja no campo abandonado...
 
 

CIDADE AO MEIO-DIA


Cidade ao meio-dia

2001
92 X 73 cms
Acrílico s/tela
ISABEL MAGALHÃES

Col. Particular

terça-feira, agosto 17, 2004

UM VERSO

Um verso. Nada mais que um verso cintilante
contra o equilíbrio cósmico e a expansão do universo
na cauda do cometa mais errante
no coração do espaço e seu avesso
uma sílaba cantante
um verso.

Para além dos buracos negros e das linhas interestelares
um som no espaço
um eco pelos ares
um timbre um risco um traço.

Um som de um som: alquimia
de signos e sinais
não mais do que outra forma de energia
imagens espectrais
de um sol inverso
um ponto luminoso nos fractais
um verso.

Manuel Alegre
in Senhora das Tempestades

O REINO DO OURO


O Reino do Ouro

1999
60 X 100 cms
Técnica mista - colagem e acrílico sobre tela
ISABEL MAGALHÃES

Col. Dra. Isabel Cardoso

segunda-feira, agosto 16, 2004

GEOMETRIA ILUMINADA


ISABEL MAGALHÃES

Geometria Iluminada
1999
73 x 92 cms
Acrílico s/tela


Col. Autora

"DA COR AO CORAÇÃO"
Exposição Individual
1999
Inauguração da Galeria Casa Santa Rita - Colares/Sintra

domingo, agosto 15, 2004

CUCULÍDEOS - Cucos


CucoCuculus canorus

Esta ave possui dimensões médias, plumagem escassa e cauda de comprimento moderado. Nos pés apresenta quatro dedos, dois dirigidos para a frente e dois para trás.

É uma ave parasita. Põe e abandona os ovos nos ninhos de outras aves para que lhe alimentem as crias.

Na blogosfera também há Cucos. Nada produzem e abandonam os ovos – podres – nos blogs alheios.

E nem sequer são canorus; para nosso contentamento.


CIDADE AO ACORDAR


ISABEL MAGALHÃES
Cidade ao Acordar
2001
92 x 73 cms
Acrílico sobre tela


Col. Autora

sábado, agosto 14, 2004

CELEBRAR A OBRA



Não gosto de elogios fúnebres, prefiro celebrar a obra.
Só comecei a conhecer o trabalho de HENRI CARTIER-BRESSON em 1974/75 quando a compra da francesa PHOTO se tornou um dos meus hábitos de consumo.
No meio de muita informação técnica, muita publicidade a material fotográfico cujo preço, à época, era proibitivo em Portugal, principalmente ao escalão etário mais jovem, e de muitas fotografias realizadas com o apoio das maravilhas da técnica, - as fotos trabalhadas a laser eram já uma realidade e lembravam a pintura dos Impressionistas - havia, amiúde, fotos e referências a HCB.
Eu estava “a sair” das fotos de família, daquelas fotos de dimensão muito reduzida, com margem serrilhada, em que me via apenas um ponto minúsculo, captado a excessivos metros de distância, pelo “caixotinho” KODAK, de uma das minhas tias, nomeada “fotógrafa oficial” lá de casa. E, a compra da minha primeira SLR, ainda teria que esperar até 1980.
As fotos do Bresson, apesar do desfasamento no tempo e no espaço, - o senhor era contemporâneo da senhora minha avó – fascinavam-me os olhos e o espírito. O enquadramento era perfeito e mais tarde vim a saber que não cortava negativos; imprimia tudo o que captava. Tinha a precisão e a rapidez necessárias para captar o que queria e só o que queria.
Das muitas fotos dele, há uma que não encontro e que recordo amiúde: “A Jogadora de Ténis” – anos 30? – uma senhora a que os franceses chamam “Bon chic, bon genre”. E é assim que vou guardar o CARTIER-BRESSON. B.C.B.G.!


sexta-feira, agosto 13, 2004

ARIES


Aries

1999
100 x 81 cms
Acrílico sobre tela
ISABEL MAGALHÃES

Col. Particular

NONO POEMA DO PESCADOR

Os anjos são de Rilke. Mas
quem
para além do vaivém das
marés? Quem
quando só o mar e céu
e nem
um só se afoite
na praia sem
ninguém? Quem
quando só eu
e a noite?

Manuel Alegre
in Senhora das Tempestades

quinta-feira, agosto 12, 2004

miguel torga poeta ibérico

12 de AGOSTO de 1907

Nasce em S. Martinho da Anta, Sabrosa, distrito de Vila Real, Trás-os-Montes, MIGUEL TORGA.


CONFIDENCIAL

Não me perguntes, porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitado.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.


in DIÁRIO

quarta-feira, agosto 11, 2004

CASAS À BEIRA DO CAIS


Casas à Beira do Cais

1999
81 x 100 cms
Acrílico sobre tela
ISABEL MAGALHÃES

Col. Arquitecta Teresa Cabido

CAIS



Nenhum cais
Será apenas
De partida e de chegada ...

Há em cada regresso
A mágoa de partir.
Cada ida
Tem agrilhoada
A saudade de ficar
Quando anuncias que vais.

Sobra sempre um beijo
Desconforto
Quando o lenço branco
Se desdobra
E absorto
Se despede ao vento
E em silêncio
Diz adeus ao sentimento
Quem sabe ...até nunca mais !
E morrem no esquecimento
Casas à beira do cais ...


João Moutinho
23 de Outubro de 2000

domingo, agosto 08, 2004

DISSE...

o Alberto Caeiro:

"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Cada um é como é. Ambos existem."

É um facto; ambos existem! Mas, cá por mim, prefiro o Sol. Sempre dá para ir à praia, bronzear e poupar energia no secador da roupa.

quarta-feira, agosto 04, 2004

PRETO NO BRANCO

Porque será que à maioria dos poetas lhes desperta a verve quando cantam a tristeza dos desencontros do amor? E os grandes prémios de fotografia que apenas contemplam o trabalho dos que captam cenas de guerra e de miséria? E porque não cantar hinos á alegria em vez de dar à estampa o preto e branco do sofrimento? Será que a alegria "não vende"? Deixou de ser notícia? Passou de moda? Será que o homem é um ser triste, vampiro de situações negativas e que as alimenta com o desamor, com a infelicidade própria e a alheia, com os traumas, as frustações, as não realizações pessoais? E porque não inverter a situação? Porque não falar, escrever, fotografar o outro lado, o lado das coisas belas e das coisas boas, dos sentimentos bons como a amizade e o amor? O amor que todos temos para dar e que amiúde não damos, porque não sabemos, porque não queremos, por inércia ou omissão. O amor feliz, realizado, escrito, falado, pintado com uma paleta cheia de cores.

terça-feira, agosto 03, 2004

SILLY SEASON

Acho que também entrei na silly season!

domingo, agosto 01, 2004

1º DE AGOSTO!


1º de Agosto, 1º de Inverno!
Diziam os antigos, conhecedores dos ventos e dos mares, que o dia 1 de Agosto é o indício do Inverno que vamos ter.
Eu, ignorante confessa dessas coisas, só posso desejar que o Inverno que há-de vir, seja ameno e que a chuva seja q.b. - como nas receitas de culinária - e já que há menos quem trabalhe de noite, que chova de preferência quando a maior parte dorme. Que tenhamos - enfim - sol na eira e chuva no nabal. Para contentamento de todos.

sexta-feira, julho 30, 2004

O CONTO DO VIGÁRIO

 
(Na  era da Internet)

Circula na net, via e-mail, uma nova versão do Conto do Vigário. Em essência são sempre iguais. Chegam-nos de países africanos de língua não portuguesa e usam um inglês bem escrito, bem articulado.

Começam, de forma muito educada, pela apresentação. Dizem-se filhos ou herdeiros de personalidades de renome ou titulares de cargos governamentais.
Dispõem de uma quantia elevada – o e-mail que recebi ontem mencionava vinte e um milhões de dólares americanos – depositada num cofre algures num país europeu, que precisam levantar urgentemente, sob pena de a perderem mas que o sistema económico e/ou os problemas sociais do  país de origem, ou mesmo a guerra, não o permitem. Essa quantia será depositada na conta do feliz destinatário do e-mail que pela sua generosidade, receberá a importância de 25%, sendo  20% de comissão e 5% para cobrir as despesas de transferência.

“A única esperança de recuperar o depósito deixado pelo nosso falecido pai, está nas suas mãos” – dizem. “Assim, humildemente, solicito a sua assistência, conforme segue:

1 – Ajudar-me a reclamar este cofre como nosso beneficiário.

2 – Transferir este dinheiro (US$21.000.000.00) em seu nome, para o seu país.

3 – Pagar, antecipadamente, as despesas de transferência (5%).”

Alertam também para a necessidade de um absoluto sigilo e pedem que lhes seja enviado para um determinado e-mail, dados como nome completo, morada e números  de Tel/Fax.

Antes de terminar, agradecem e pedem a Deus protecção para tão generosa pessoa.
 A questão é simples. As despesas a pagar são elevadas, dada a quantidade de zeros da pseudo herança e é aí que reside o lucro do remetente do e-mail. Uma vez depositada essa importância, não há  20% de comissão de coisa nenhuma. Há apenas alguém – sabe-se lá onde -  a esfregar as mãos de contentamento, com mais uns milhares de dólares que um qualquer ganancioso, na expectativa do lucro fácil, lhe depositou em conta.


quinta-feira, julho 29, 2004

O POINTER


"O Pointer está para os cães de parar como um Ferrari para os automóveis."

Representa a essência do cão de parar britânico mas as suas origens são continentais, sendo provavelmente descendente de Bracos Ibéricos levados para a Grã Bretanha no início do século XVIII por caçadores da nobreza. Os cruzamentos sucessivos num sistema de consanguinidade muito acentuada, com frequente troca de genitores, deu rapidamente origem a uma raça única de Pointers bastante homogénea. Especialistas incontestados das grandes extensões, estes cães destinavam-se à caça da perdiz e do grouse.

"Demasiado rápido", "incontrolável", segundo uns, mas na verdade não merece essa reputação. O Pointer caça velozmente e longe mas é uma das mais excepcionais "máquinas de caçar". É dotado de um faro inigualável e de meios físicos impressionantes e na maioria dos casos, um maravilhoso descobridor de caça. É elegante, robusto, nervoso, bem constituído. De carácter brando, aceita bem o adestramento desde que este não tente fazer dele um cão lento e de caça sob arma. A sua inteligência permite-lhe adaptar-se a diferentes tipos de caça, desde que se lhe deixe espaço suficiente para desenvolver a sua busca.

O seu caracteristico porte de cabeça acima da linha do dorso, permite-lhe captar a mais pequena emanação trazida pelo vento, mesmo a grande distância. A sua "paragem" é impressionante uma vez que não retarda a marcha ao sentir a emanação de uma peça. Pára simplesmente a alta velocidade e "petrifica" numa atitude de tal forma dominadora que bloqueia a caça.

O Pointer é um aninal bem-disposto, amigável e excelente companheiro em casa, mesmo em apartamento. Contudo, tem uma enorme necessidade de exercício diário e treino regular de corrida com bom ou mau tempo, para que se mantenha saudável.

Pelagem: Pêlo curto e fino, de distriuição uniforme; completamente liso e muito brilhante.
Cor: As cores mais comuns são limão e branco, laranja e branco, fígado e branco e preto e branco. As pelagens uniformes ou tricolores também são aceites.

Tamanho: Altura na espádua nos machos 63 a 69 cms; nas fêmeas 61 a 66 cms.

quarta-feira, julho 28, 2004

CTT


Numa das freguesias aqui do concelho, o "carteiro" toca por volta das 10:00/11:00h da manhã. Suponho que será assim nas freguesias da grande Lisboa e dos grandes centros urbanos. A campainha toca, as pessoas perguntam pelo intercomunicador - quem é? - e à resposta - é o carteiro! - o automático abre a porta. Nada de anormal; é este o procedimento sempre que a campaínha toca, seja quem for que toque à campaínha. Estranho, muito estranho, é que , apesar de se ter respondido e aberto a porta da escada, o "carteiro" opte por deixar na caixa do correio, um aviso de registo a dizer - "NÃO ATENDEU. Pode ser levantado na Estação dos CTT a partir das 16:00h". Um registo, é um serviço especial, pago por outrém, com uma taxa suplementar, para que determinada carta, ou encomenda, seja entregue em mão, contra a assinatura do destinatário.
Por curiosidade, o edifício até tem elevador. Dois, para ser mais exacta.

sexta-feira, julho 23, 2004

CARLOS PAREDES

1925-2004

"As pessoas gostam de me ouvir tocar guitarra."


quinta-feira, julho 22, 2004

AO LUME

Nem sempre o homem é um lugar triste.
Há noites em que o sorriso
dos anjos
o torna habitável e leve:
com a cabeça no teu regaço
é um cão ao lume a correr às lebres.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, julho 21, 2004

ECCE HOMO

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.

José Carlos Ary dos Santos

quarta-feira, julho 14, 2004

21.

E chegamos aqui. Vindos da vida.
Já esquecidos do som da nossa voz.
Sobreviventes da cidade erguida
de costas para a foz.

Viemos de tão longe pela areia
que há algo de alga a nos prender os pés.
A paisagem de gestos encontreia-a
nas palmeiras à beira das marés.

Vemos passar a migração de patos
bravos e breves a rasar a água.
Já levantámos voo tantas vezes
que em nós só o olhar é que viaja.

Arremessada à praia do teu corpo
descanso então do grito da chegada:
descobrimos que o sol não estava morto
só estava posto e rasga a madrugada.

Pode parar o fio do pensamento
a corrida do medo contra o sono.
Bebo afinal o copo do silêncio
que faz calar o vento no teu ombro.

Rosa Lobato de Faria
in
As Pequenas Palavras

terça-feira, julho 13, 2004

Ontem...

 

uma qualquer eminência parda do pcp disse no telejornal da noite: - "Seja qual for o programa de governo do Primeiro Ministro Pedro Santana Lopes, o pcp vai vetar".
É urgente que... alguma alma caridosa, esclareça a criatura que o País está primeiro que o partido.

AQUI

.
Aqui
Nem sei porquê
Insisto
escrevo

Caminhos cruzados
palavras a esmo
Face obscura
por vezes
indecisa
de mim mesmo
que ora se enternece
e logo se apavora
com a inevitável marcha
para o fim
Sem saber sequer
se tu és longe
ou se sou eu,
cada vez mais,
longe de mim


Fernando Perdigão
Julho 2004

domingo, julho 11, 2004

CREPÚSCULO

.
É quando um espelho no quarto,
se enfastia;
quando a noite se destaca
na cortina;
quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
quando a força de vontade
ressuscita;
quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
É quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.

David Mourão-Ferreira
in
Os Quatro Cantos do Tempo
[1953-1958]

sábado, julho 10, 2004

O PAÍS...

é mais importante que o partido. Era Sá Carneiro quem o dizia. E o Senhor Presidente da República mostrou ser o Presidente dos Portugueses, enquanto filhos de uma Nação. Bem Haja!

sexta-feira, julho 09, 2004

VIVA PORTUGAL

De Um CD...

acabado de receber.

O MUNDO AO CONTRÁRIO
Tim Xutos & Pontapés

Onde vais?
Perguntas tú
Ainda meio a dormir
Não sei bem
Respondo eu
Sem saber o que vestir

Porque sais?
Ainda é cedo
E tu não sabes mentir
Nem eu sei
Só sei que fica tarde
E eu tenho de ir

Bem, depois
De estar na rua
Instalou-se uma dor
Por nós dois
Talvez sair
Tivesse sido o melhor...
Se assim foi
Porque me sinto eu
A morrer de amor?

Tenho a noite a atravessar
Dói-me não ir
Mas não me deixas voltar

Se gosto de ti
Se gostas de mim
Se isto não chega
Tens o mundo ao contrário

quinta-feira, julho 08, 2004

MINUTO

.
O amor? Seria o fruto
trincado até mais não ser?
(Mas para lá do prazer
a Vida estava de luto...)

Fui plantar o coração
no infinito: uma flor...
(Mas para lá do fervor
a Vida gritou que não!)

O amor? Nem flor nem fruto.
(Tudo quanto em nós vibrara
parecia pronto a ceder...)

Foi apenas um minuto:
a fome intensa, tão rara!,
de ser criança, ou morrer...

David Mourão-Ferreira
in
A Secreta Viagem
[1948-1950]

quarta-feira, julho 07, 2004

1.

.
Quero dar-te a coisa mais pequenina que houver
bago de arroz grão de areia semente de linho
suspiro de pássaro pedra de sal
som de regato
a coisa mais pequena do mundo
a sombra do meu nome
o peso do meu coração na tua pele.

Rosa Lobato de Faria
in
As Pequenas Palavras

terça-feira, julho 06, 2004

Teoria das Marés

.
Calidamente nua,
sob o vestido leve,
tua carne flutua
no desejo que teve.

Timidamente nua,
revelas, num olhar,
em minhas mãos, a lua
que te fez oscilar.

David Mourão-Ferreira
in
A Secreta Viagem
[1948-1950]

segunda-feira, julho 05, 2004

VAMOS...

continuar com a bandeira das quinas. Não só na janela mas sempre no CORAÇÃO!

TESTAMENT

Je legue à mes amis


Un bleu céruleum pour voler haut
Un bleu cobalt pour le bonheur
Un bleu d’outremer pour stimuler l’esprit
Un vermillon pour faire circuler le sang allègrement
Un vert mousse pour apaiser les nerfs
Un jaune d’or : richesse
Un violet de cobalt pour la réverie
Un garance qui fait entendre le violoncelle
Un jaune barite : science-fiction, brillance, éclat
Un ocre jaune pour accepter la terre
Un vert Véronèse pour la mémoire du printemps
Un indigo pour pouvoir accorder l’esprit à l’orage
Un orange pour exercer la vue d’un citronnier au loin
Un jaune citron pour la grace
Un blanc pur : pureté
Terre de Sienne naturel : la transmutation de l’or
Un noir somptueux pour voir Titien
Une terre d’ombre naturel pour mieux accepter la mélancolie noire
Une terre de Sienne brûlée pour le sentiment de durée



VIEIRA DA SILVA – (13/VI/1908 – 6/III/1992)

domingo, julho 04, 2004

A Vergonha!

Pensava eu - se calhar com o meu proverbial optimismo - que estes anos de liberdade e democracia, nos ensinariam a ser mais respeitadores dos direitos dos outros. Nos ensinariam a dar voz aos nossos gostos e desgostos, de forma ordeira, correcta, positiva, construtiva. Que deixariamos de recorrer à baixaria, ao enxovalho, ao insulto fácil e gratuito. Que apoiariamos o senhor A sem ofender o senhor B. Que não citariamos o senhor C para ofender o senhor B e por aí fora. Resumindo, que nos deixariamos de peixeiradas e de maus perderes. Não tem sido assim. Nem é apenas o cidadão anónimo, inculto, desconhecedor, que troca uns cometários exaltados com o vizinho, à porta de casa, na cadeira do barbeiro, ou no café do bairro. São cidadãos com curriculum político. Cidadãos de cultura e conhecimento, com um historial que nestes trinta anos recentes, lhes deu acesso aos média e cujos comentários - escritos e falados - me deixam espantada e envergonhada. Não gosto desta faceta do meu povo. Não gosto deste exemplo - mau exemplo - que continuamos a passar aos nossos filhos e netos. Quero deixar de ter vergonha. Quero um Portugal mais bonito, com gente mais correcta que lute pelos seus ideais mas de forma civilizada e nobre.

PORTUGAL! PORTUGAL! PORTUGAL!

sábado, julho 03, 2004

VI

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...

Alberto Caeiro
in
POEMAS

sexta-feira, julho 02, 2004

DERIVA

.
Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som das suas falas
Que já nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais

As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri

Sophia de Mello Breyner Andresen
1919-2004

Afinal...

onde estavam ontem os barões assinalados que da ocidental praia lusitana dos últimos dias, esgrimiram armas e agitaram as hostes contra Pedro Santana Lopes? Calaram a voz, sobraram três. O rei morreu, viva o rei!

quinta-feira, julho 01, 2004

O caminho...

faz-se caminhando!
PEDRO SANTANA LOPES à frente do PSD

A "silly season"...

este ano, cá no burgo, está muito menos silly. Despertou o patriotismo, ficámos todos adeptos, mesmo os que passavam totalmente à margem do futebol. O País segue dentro de momentos!

Lar, Doce Lar!

Já estou de volta a casa. Cheguei ontem, depois de três semanas de ausência, em férias, num Turismo Rural. Estive bem, não descurei o exercício físico, nem o descanso. Deitava-me com as galinhas e acordava com os galos, esquecido dos horários de artista, cá de casa. É bom estar de volta. There is no home like home! - Diogo Cão.

É TÃO BOM...


começar o dia, com um sumo de laranja bem espremida! :)))

quarta-feira, junho 30, 2004

PORTUGAL! PORTUGAL! PORTUGAL!

Faltam...

Já falta cada vez menos. Vou deixar de contar. Vou viver o dia a dia. Afinal, o relógio marca sempre a mesma cadência - 24 horas por dia, 60 minutos por hora, 60 segundos por minuto...!

terça-feira, junho 29, 2004

2.

Nas tuas mãos abertas cresce o trigo
Nos meus seios fechados coze o pão
O teu pássaro azul voou comigo
e uma pena ficou na minha mão

Não há amores perfeitos. Só contigo
é que as gardénias cheiram a limão
a repetir um ritual antigo
lá onde cresce o trigo e coze o pão

Dizes-me adeus com preces de mendigo
Na hora da partida é que eu te digo
- Tenho uma pena azul na minha mão

Calou o vento seus cantares de amigo
Invadiu o luar o meu postigo
Lá. Onde cresce o trigo e coze o pão.

Rosa Lobato de Faria
in
Dispersos

Faltam...

14 dias! :)

segunda-feira, junho 28, 2004

16.

Marcou-me o polegar da poesia
no dorso das palavras inconclusas
Devoram o meu pão de cada dia
musas medos marés mitos medusas

Impressão digital de um deus secreto
no reverso de mim que desconheço
sinete e lacre no pulsar incerto
dum coração lunar que não mereço

Por ti diria uvas caravelas
Por ti diria cântaro granito
Por ti diria tâmaras janelas
sede porto gaivota barco grito

Por ti diria tudo ou quase nada
se não fosse esta fome esta saudade
de ser eternamente madrugada
ou ser precariamente eternidade.

Rosa Lobato de Faria
in
Memória do Corpo

ABRUPTO

27.6.04
18:58 (JPP)


"(...) E o país é mais importante que o partido, não é? Não era Sá Carneiro que o dizia?"

Faltam...

15 dias! :)

domingo, junho 27, 2004

ABRUPTO

 

-
26.6.04
23:32 (JPP)
POBRE PAÍS

o nosso.

"Será que se faz ideia, em particular nos órgãos de comunicação social, da enorme confusão que as pessoas comuns, menos politizadas, sentem face a notícias que estão a ouvir nos intervalos do futebol? Notícias que se precipitam, com pequena clareza e explicação, feitas por gente que acompanha ao detalhe a luta política exclusivamente para gente literata na nossa política, sem cuidar da insegurança que geram?

As pessoas intuem que alguma coisa de importante se está a passar, mas não sabem o que é. Imaginam os comentários perplexos que, numa pequena aldeia, traduzem essa impotência pela falta de informação, ou pela informação apressada? O que é que se está a passar? O nosso PM morreu? Os comunistas vão ganhar? Vai mudar tudo? Quem vai governar é a Europa?

Todos estas perguntas me foram feitas. Esta é a realidade da percepção pública de uma crise inesperada, que surge com a máxima estranheza porque fora do quadro eleitoral normal."


Faltam...

16 dias! :)

sábado, junho 26, 2004

XLIX

(Mundo tão concreto. E tão irreal)



Uma nuvem pequenina
saiu-te dos olhos
e pairou por momentos
no ruído azul
do sol velado...

Depois transformou-se na ninfa do despenteio ao Vento

e vai agora pelos campos
com cabelos de poeira
e túnica molhada de flores amarelas
- lá por onde passa a minha solidão
a fingir de primavera
nos caminhos dos pés voados
por dentro do pólem...


José Gomes Ferreira
in
Poesia III

Faltam...

17 dias! :)

sexta-feira, junho 25, 2004

"No Arame"

O blog do Alexandre Monteiro, completa hoje um ano de existência. Aqui ficam os nossos sinceros Parabéns - e também um bolo com 1 vela e uma taça de champagne, virtuais! :)

"VIVA PORTUGAL"

Faltam...

18 dias! :)

quinta-feira, junho 24, 2004

Ignorante confessa...

e fraca adepta dos calendários anuais do desporto que arrasta multidões, agrada-me, sobremaneira, o clima de alegria, de cor e euforia que inunda Portugal. O nosso proverbial cinzentismo foi momentâneamente esquecido. Levantámos o nariz do chão e até conseguimos sorrir aos desconhecidos. Estamos mais soltos, mais positivos, menos "vai-se andando". Estamos a mostrar - mais uma vez - que também somos bons a organizar e "em grande". Um elogio aqui para as mulheres - em maior número - nos lugares chave da organização. Que a Bandeira se mantenha e que o espírito que nos anima, tenha vindo para ficar.
Não importa que seja pela via do football. Importa que seja. Importa que sejamos sempre portugueses enquanto nação. FORÇA SELECÇÃO. E VIVA PORTUGAL!

12.

Não me disseste amante madrugada
pedra-de-lua pássaro viagem.
No meu corpo de Agosto feito à estrada
não descobriste a sombra da folhagem.

Não murmuraste ao menos solidão.
Amora mel morango não disseste.
Não te pedi nem mar nem coração.
Não tens perdão.

Fui água e não bebeste.

Rosa Lobato de Faria
in
Memória do Corpo

Faltam...

19 dias! :)

quarta-feira, junho 23, 2004

9.

Afirmas que brigámos. Que foi grave.
Que o que dissemos já não tem perdão.
Que vais deixar aí a tua chave
e vais à cave içar o teu malão.

Mas como destrinçar os nossos bens?
Que livro? Que lembrança? Que papel?
Os meus olhos, bem vês, és tu que os tens.
Não te devolvo - é minha - a tua pele.

Achei ali um sonho muito velho,
não sei se o queres levar, já está no fio.
E o teu casaco roto, aquele vermelho
que eu costumo vestir quando está frio?

E a planta que eu comprei e tu regavas?
E o sol que dá no quarto de manhã?
É meu o teu cachorro que eu tratava?
É teu o meu canteiro de hortelã?

A qual de nós pertence este destino?
Este beijo era meu? Ou já não era?
E o que faço das praias que já não vimos?
Das marés que estão lá à nossa espera?

Dividimos ao meio as madrugadas?
E a falésia das tardes de Novembro?
E as sonatas que ouvimos de mãos dadas?

De quem é esta briga? Não me lembro!

ROSA LOBATO DE FARIA
in
As Pequenas Palavras

“O Plágio é Uma Forma de Elogio ”

-

Arroz de Pato À Rédea Solta.


Ligue o formo, regule-o para 200 graus e deixe-o aquecer por 10 minutos.

Enquanto isso, abra o congelador e retire uma embalagem de arroz de pato (como ninguém me paga publicidade, não indico marcas). Com uma tesoura corte a extremidade da caixa de cartão – guarde a prova de compra para futuras promoções – retire a embalagem que vem dentro, corte a capa de plástico e deite o conteúdo num pyrex não untado. Coloque-o no formo, previamente aquecido, durante 30 minutos, tendo o cuidado de mexer com uma colher de pau a meio da contagem.

Sugestões:

Sirva... com uma boa salada mista, das que vêm embaladas e já lavadas.

Acompanhe... com um vinho tinto, maduro, servido à temperatura ambiente.

Use da imaginação ... pense que está a comer Arroz de Pato das receitas do “ Arame” que deve ser - de longe - muito melhor do que este.

Et... Bon Apetit! :)))

Faltam...

20 dias! :))

terça-feira, junho 22, 2004

É quando estás de joelhos
que és toda bicho da Terra
toda fulgente de pêlos
toda brotada das trevas
toda pesada nos beiços
de um barro que nunca seca
nem no cântico dos seios
nem no soluço das pernas
toda raízes nos dedos
nas unhas toda silvestre
nos olhos toda nascente
no ventre toda floresta
em tudo toda segredo
se de joelhos me entregas
sempre que estás de joelhos
todos os frutos da Terra.


David Mourão-Ferreira
in
MÚSICA DE CAMA

Faltam...

21 dias! :))

segunda-feira, junho 21, 2004

domingo, junho 20, 2004

A APCA - Canil de São Pedro de Sintra,

tem para adopção cerca de 20 cachorros. São todos muito meigos e saudáveis. Se procura um amigo de 4 patas para tratar com amor e respeito, venha fazer-nos uma visita e adopte um dos nossos cães. Eles serão gratos para toda a vida!

917255595 – 917607773 – info@apca.org.pt

http://www.apca.org.pt

"Era meu objectivo salvar toda aquela gente"

No dia 18/6 a Fundação Pro Dignitate, abriu as portas numa homenagem a Aristides Sousa Mendes.
O Historiador convidado, Professor Doutor João Medina, usou da maior isenção ao falar sobre a vida e obra do Consul de Portugal que à revelia do regime em que servia e acreditava, salvou dezenas de milhar de vidas. 10.000 ou 30.000 não importa. Está escrito algures - SE SALVARES UMA VIDA JÁ VALEU A PENA.

Faltam...

23 dias! :)

sábado, junho 19, 2004

Hoje...

o céu acordou cinzento. Sei que é um "lugar comum", mas o azul está mesmo "faded away", como os jeans de que tanto me custa separar. Em qualquer Feira da Ladra da Europa, Marché aux Puces, Petit Coat Lane, Portobello Road ou até o de Amsterdam - cujo nome nunca consigo escrever, pela falta de vogais ou pelo excesso de consoantes - um par de jeans gastos, desfiados, rasgados, desbotados, com uns simpáticos remendos bordados a missangas e lantejoulas, vale uma pipa. Verdade seja dita - há gente com uma enorme criatividade! Eu, contento-me em pintar os meus a acrílico, sempre que um pincel distraído deixa tinta onde nao deve. E a partir daí vou criando. Quem foi que disse que só o primeiro traço não é intencional?

Ontem telefonei para o Star Kennels para saber dos meus cães. Telefono algumas vezes por semana. Sei que estão bem, entregues a alguém que nao faz de um negócio de canil, apenas um negócio de canil. Estão os dois juntos, numa box espaçosa, correm livremente pela quinta algumas vezes por dia, são tratados pelo nome, recebem mimos e têm-se um ao outro. Eu é que os não tenho e a casa está estranha e desconfortavelmente vazia. Os ruídos normais da sua vivência neste espaço partilhado, também partiram com eles e não há quem "dê sinal"! Sorte estarmos no Euro e a segurança aqui na zona ser de cinco estrelas.

Em Sintra, na distância, adivinha-se um céu plúmbeo com a silhueta do Palácio da Pena quase mais imaginada que visível. O fraco azul de há uns momentos já partiu para parte incerta.
E eu também vou partir. Vou continuar a minha viagem para "SUL" na companhia do Miguel.

Faltam...

24 dias! :)))

sexta-feira, junho 18, 2004

quinta-feira, junho 17, 2004

Nesta...

minha semi-imobilidade forçada, resolvi viajar para "SUL" com o miguel sousa tavares.

37.

INTERVALO DOLOROSO

Coisa arrojada a um canto, trapo caído na estrada, meu ser ignóbil ante a vida finge-se.

Bernardo Soares
in
LIVRO DO DESASSOSSEGO

NUMA FOTOGRAFIA

Não sejas como a névoa, nem quimera.
Demora-te, demora-te assim:
faz do olhar
tempo sem tempo, espaço
limpo - do deserto ou do mar.

Eugénio de Andrade
in
O Outro Nome da Terra

Faltam...

26 dias! :)

quarta-feira, junho 16, 2004

HUMOUR...

is a means of reconciliation: if we can laugh when we are feeling tense and uneasy we can soon loose our negative feelings and see our experience in perspective, in a more rational and healthy way. But in order to laugh we need to feel safe, otherwise our anxieties about the future will sweep in and inhibit the discharge of our tension. What is true for the individual is true in the context of the work of art.

Michael Billington

Faltam...

27 dias! :)

terça-feira, junho 15, 2004

O fabrico do...

QUEIJO DE AZEITÃO é uma das actividades tradicionais mais características da zona do Parque Natural da Arrábida. Derivado do afamado Queijo da Serra – da Estrela – começou a ser aqui produzido no início do século XIX por iniciativa de Gaspar Henriques de Paiva, natural da Beira Baixa. Foi um queijeiro de Castelo Branco que ensinou aos pastores da região os segredos do seu fabrico, que transmitido de geração em geração deu origem ao famoso – e saboroso – queijo de ovelha de Azeitão.
Serão vários os factores que influenciam as características deste queijo – o clima da Serra da Arrábida, a flora das suas pastagens e uma flor de cardo existente em todo o sul do nosso país, utilizada na coagulação da caseína.
Esta delícia da nossa gastronomia ainda é produzida artesanalmente nos seguintes locais – Quinta do Calhariz, Quinta de Camarate e Quinta Velha (Castanhos).

Há...

dias em que acordamos num grande mar de "merde"! Deve ser do gesso!

Faltam...

28 dias!

segunda-feira, junho 14, 2004

MANHÃ

A nossa noite ontem à tarde
foi a manhã por que esperávamos.

DAVID MOURÃO-FERREIRA
in
Órfico Ofício
[1972-1978]

Faltam...

29 dias para tirar o gesso!

domingo, junho 13, 2004

Santo António de Lisboa

(Lisboa, 1195 - Pádua, 1231)


Frade franciscano, doutor da Igreja e português, Santo António nasce Fernando de Bulhões, a 15 de Agosto de 1195 na cidade de Lisboa e frequenta a Escola dos Cónegos da Sé. Ingressa na vida religiosa em São Vicente de Fora com 15 anos e vai depois para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, onde é ordenado sacerdote. Em 1220 torna-se frade franciscano no Eremitério de Santo Antão dos Olivais, de Coimbra. Conquistado pela vida missionária, vai a Marrocos em missão apostólica e parte depois para Itália. São Francisco convoca-o, em 1221, para o Capítulo Geral da Ordem e ali revela os seus dotes de orador a pregar perante os seus confrades e cativa São Francisco que o convida a ensinar Teologia nas escolas franciscanas de Bolonha, Montpellier e Toulouse. Em 1227 é nomeado ministro provincial no Norte de Itália. Em Pádua prossegue a sua carreira de professor de Teologia e morre nesta cidade a 13 de Junho de 1231. É proclamado doutor da Igreja pelo papa Pio XII, em 1946, que o considera «exímio teólogo e insigne mestre em matérias de ascética e mística».

sábado, junho 12, 2004

TERNURA

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

DAVID MOURÃO-FERREIRA
in
Infinito Pessoal
[1959-1962]

ARTE E SABER FAZER

Todos têm uma ideia sobre arte: o filólogo, o teólogo, o crítico, o jurista, o militar, o historiador de arte e o Senhor Presidente da Câmara. Não é verdade que cada um tem o “seu” gosto?
Perdão, Senhores, a arte nada tem a ver com o gosto, a arte, não está lá para ser “degustada” mas o Senhor Presidente da Câmara pensa que a arte está lá para que a “julguem”, a arte moderna, que é “julgada do ponto de vista comercial”.
Como é que uma ideia tão original pode ter saído da cabeça de um Presidente da Câmara? O que o Presidente da Câmara quer, é o que os críticos dos jornais diários fazem, os grandes e os pequenos. Querem emitir juízos sobre arte. Eis como é confortável, dado que uma qualquer crítica errónea não tem necessidade de ser desmentida. Os “juízes” da arte falam do “saber fazer”, deploram que este saber fazer não exista absolutamente nada nos mais “jovens”. Por vezes mesmo deploram isso muito seriamente . Mas sabem então Senhores em que consiste esse “saber fazer”? Não, os Senhores não o sabem. Crêem que saber fazer é saber desenhar e pintar correctamente, como o “sabe fazer” um aparelho fotográfico desde que se inventou a fotografia a cores. O nariz não deve ser muito comprido, nem a perna demasiado curta. E esta a “base sólida” vão procurá-la nas escolas de belas-artes e tornam-se alguém-que-conhece-bem-o-seu-ofício.
Saber fazer significa saber dar forma. Saber fazer subentende que se é capaz de pressentir a vida interior da linha e da cor. (Linha e cor elas mesmas destacadas do objecto. Pintura absoluta no sentido em que se fala de música absoluta.) Saber fazer subentende que se venceu. Para o artista, as coisas mais quotidianas, tais como as mais raras, podem tornar-se uma aventura, as cores de uma tonalidade, um emaranhado de linhas.
Este novo saber fazer subentende que o público e sobretudo o crítico, “saibam fazer” qualquer coisa. O crítico deve ser capaz de reconhecer na forma elaborada pelo artista o que ele viveu e deve poder revivê-lo ele próprio.
Se, além disso, ele for capaz de exprimir numa linguagem clara o que ele sentiu diante de uma obra de arte, tem o direito de escrever sobre arte. Talvez mesmo de emitir opiniões sobre arte. O critico deve ainda poder fazer outra coisa: renunciar a pretender vaidosamente que é o tutor da arte, que pode desempenhar um papel de conselheiro, dizer aos artistas como fazer melhor. Mas vós, Senhores juízes, não sabeis nada de arte.

E.

Volksmund, Bona 30.10.1912

E. (Ernst, Max)

TIME!

One time has asked to the TIME
«How many time has the TIME?»

TIME answered to time:
«TIME has as much time, as the time has».

sexta-feira, junho 11, 2004

14.

A música chegou na polpa do silêncio
nesta tarde solar de bocas e morangos.
E bebemos licor e lambemos os dedos
entre coxas e mãos e pássaros e seios.

Há rosas de tocar pelas ilhas de cheiro.
Nos cabelos do mar ficou o vau do vento.
E pairo horizontal na berma do teu peito
cumulada de sol feita de flores por dentro.

Rosa Lobato de Faria
in
Poemas Escolhidos e Dispersos

quinta-feira, junho 10, 2004

Ah!

No dia 7 de manhã, aconteceu-me uma coisa chata - fracturei o radio e estou de gesso! :)))


segunda-feira, junho 07, 2004

Roteiros de Luz

A pintura do GUILHERME PARENTE é uma viagem extraordinária pelo imaginário da criança que todos fomos e dos eleitos que continuam a ter essa criança dentro de si.
É uma viagem de barco, de avião, de balão, é o papagaio de papel com folha de ouro, é a casinha e os passarinhos dos primeiros desenhos de todos nós, é a cantilena infantil - "rei... capitão... soldado..." - é o Cavalo de Troia, é o farol. É a alegria suprema de podermos contemplar o seu trabalho - cor, motivo e tela. É o prazer do reencontro com o pintor. Eu estive lá e jamais esquecerei.

No Centro Cultural de Cascais, de 4/6 a 18/6, de Terça a Domingo, das 10 às 18 horas.

domingo, junho 06, 2004

XLVII

(Um momento de filosofia barata.)

Para além do "ser ou não ser" dos problemos ocos, o que importa é isto:
- Penso nos outros.
Logo existo.

José Gomes Ferreira
in Poesia - III

sábado, junho 05, 2004

11.

Os teus dedos escorrendo como leite
como mel como chuva como sumo.
A sombra do meu ombro no tapete.
Os teus beijos ardendo ao pé do lume.

Que sede que silêncio que sonata
que saudade de sermos sempre assim:
a maçã sobre a salva ainda intacta
a serpente singrando sobre mim.

Rosa Lobato de Faria
in Poemas Escolhidos e Dispersos

sexta-feira, junho 04, 2004

A obra...

vai tendo uma gestação lenta no interior do artista. Cria-se como um hábito de pensar e reagir em imagens que depois, quase inconscientemente, vamos decantando e seleccionando. Mas quando julgamos que já se pode atacar determinada ideia, vemos que a obra também manda porque tem as suas próprias leis de formação, internas e externas. Revolta-se e impõe-nos as suas condições como as personagens de Pirandello. Como em todas as coisas da vida, existe um diálogo entre o autor e a matéria da sua obra. Ao princípio, a meta nem sempre é clara, "se hace camino al andar".

(1958)

Antoni Tàpies

Do Espiritual na Arte

"Toda a obra de arte é filha do seu tempo e, muitas vezes, a mãe dos nossos sentimentos.
Cada época de uma civilização cria uma arte que lhe é própria e que jamais se verá renascer. Tentar ressuscitar os princípios da arte dos séculos passados só pode conduzir à produção de obras abortadas."

Munique, 1910

KANDINSKY

quinta-feira, junho 03, 2004

Acordei...

cedo! Pensar o trabalho que vou criar - quando, o que eu gosto, é "deixar que aconteça" - tira-me o sono. Melhor, reduz-me horas do sono que necessito, para ter paz de espírito e deixar que aconteça. Quando assim acontece - sorte minha, raras vezes - fico surrealista; ou talvez não.


XV

A este desespero azul
de te querer sempre ao pé de mim
chamam os homens amor.

Mas o amor é outra raiva
de arrancar o sol da lua.
É andar com andorinhas na algibeira,
e dependurá-las na chuva...

José Gomes Ferreira
in Poesia Terceira

quarta-feira, junho 02, 2004

A pintura...

sempre foi uma abstração, desde as grutas de Altamira até Picasso, passando por Velásquez. Eu disse muitas vezes, perante os fanáticos do Realismo, que a realidade nunca esteve na pintura, que ela se encontra unicamente na mente do espectador. A Arte é um signo, um objecto, algo que sugere a realidade do nosso espírito. Não vejo, portanto, qualquer antagonismo entre abstração e figuração, na medida em que ambas nos sugerem esta ideia da realidade. A realidade que os olhos mostram é uma sombra muito pobre da realidade.

(1955)

Antoni Tàpies
in La practica de l'arte

terça-feira, junho 01, 2004

No Dia da Criança!

Liberdade


Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca.




Fernando Pessoa
in Cancioneiro